quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Se os tubarões fossem homens


Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.

Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões.

Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.

Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.

Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre sí a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.

As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.

Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.

Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.

A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos.

Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.

Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante.

Curto e grosso: só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.

Bertold Brecht

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A minha mão é o peso que carregarei por toda a minha vida.

Apertei, rasguei, apontei, estapeei, afaguei... apenas as más ações martelam na minha mente.

Um sol, um belo céu. Ainda sinto o teor cinzento. Culpa das minhas mãos.

Digito palavras, verbalizo amores. Não as sinto. Culpa das minhas mãos.

Leciono, incito às vivências em buscas das verdades. Vou ao banheiro, lavo o rosto, e minha máscara cai.

Culpa das minhas mãos.

Reflito sobre a paciência, ao ouvir a juventude, compreender a adolescência e seu vigor. Empurro uma debutante contra a parede e estapeio-lhe a cara. Culpa das minhas mãos.

Choro, penso em fumar, em beber, em me masturbar para esquecer os males que faço. Mas a minha mão não se move, pois está infectada pelo peso e amargor do arrempendimento.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

"E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente nem vive
Transformar o tédio em melodia..."



domingo, 24 de julho de 2011

Onde Alan Ball quer chegar com True blood?


Onde Alan Ball quer chegar com True blood?

Tudo começou com um roteiro que se passa numa cidade fictícia chamada Bon Temps. Uma garota, indefesa e sexy garçonete, conhece um vampiro. Ambos se apaixonam. A relação entre humanos e vampiros é “próxima”, tanto quanto normal. Os seres das trevas subestituem o sangue humano por um sangue sintético, intitulado True Blood. Este roteiro é o que segue a primeira temporada: Uma garota que se apaixona por um vampiro; um clichê que se apoderou das obras cinematográficas e das séries de tvs atuais, e True Blood não seria diferente. Ledo engano.

Conforme a série vai prosseguindo, deparamos com outros seres: deusas, lobisomens, metamorfos... A quarta temporada, que está em produção no exato momento, nos remete a um mundo de fadas e bruxas, completando as classes de seres “mágicos” presentes no mundo humano, atormentando a paz da cidade pequena de Bom Temps. As brincadeiras feitas diante da série e do roteiro visto como fantasioso por excelência são inúmeras.

Contudo, lembremos da série Six Feet Under (A sete palmos), outra série produzida por Alan Ball: possui uma qualidade insuperalmente maior que True Blood, onde os personagens viviam sufocados em seus dramas e medos; alguns personagens amadurecidos e outros em caminhada ao amadurecimento. O Alan Ball trazia na trama a maneira como a família protagonista lidava com a morte, e o que ela representava a cada personagem. O produtor trazia consigo a morte como algo comum no cotidiano daqueles que a tem como outro membro da família.

True blood é diferente; a história gira em torno de uma única personagem, onde todos desejam (sexualmente falando) a sua vida. Passou três temporadas dando a sua vida em nome do amor que sentia pelo vampiro Bill, e se descobre dotada de um “dom”... porém, essa mistura de seres fantasiosos ainda é uma indagação. Queria o Alan Ball trazer um Conto de fadas contemporâneo, mais adulto, mais erótico e sangrento?

Talvez seja em cima disso que o produtor queira trabalhar. Na minha opinião, esta deveria ser a última temporada da série de Sookie e os duendes, ops! True Blood, que está indo em direção à fantasiosa comédia recheada de frutas de luz, fadas e coisinhas mágicas nada cativantes.

sábado, 23 de julho de 2011

#Nowplaying: The Feeling - Set My World On Fire


You set my world on fire
I love you more every day
You can run you can run but don't stay long
I love you more every day

Um andarilho

De passo em passo, troca pensamentos com o asfalto. Caminha lentamente, ao passo que sua idade e juventude correm de acordo com o que a vida rouba de si.

É na vida que ele pensa, e não nas toturas que o solado de seu sapato sofre. "Foram fabricados para sofrer meu peso e o calor do asfalto. Pra que reclamar?" - Era a sua justificativa.

Passa por estradas desertas e não encontra ninguém; cruza pequenas casas, e rejeita companhia. Ele quer o sentimento de quem opta em levar a vida com sua própria força, mas acaba ouvindo vozes ao fundo, entre cochiços, que o arranca do pedestal de um herói: "Pobrezinho, não suportará as cruzes da maturidade." Faz amizades, para matar o tempo; Sente a felicidade das crianças e de seus jogos em coletivo.

Mas aquele não é o seu lar.

Ele mora sozinho. E na estrada.




segunda-feira, 18 de julho de 2011

If: Da castração escolar à rebeldia de 68.


As grandes escolas foram construídas como um ambiente que proporcionasse a formação do sujeito por excelência, vislumbrando a construção de um homem intelectual e cumpridor dos bons costumes. Mais conhecidas como academias, estas foram destinadas aos filhos de famílias tradicionais burguesas e mantinham-se estruturadas numa educação tradicional, onde o professor era o portador do conhecimento que seria passado ao aluno por meio da repetição dos conteúdos, além do ensino voltado à moral e aos valores cristãos, onde os alunos eram submetidos à disciplina e sujeitos a punições, caso violassem a boa conduta imposta na instituição. Tais características serviram para a construção do roteiro do filme “If...”: provocante e subversiva obra, a qual foi produzida na efervescência cultural e política de 1968, e dirigido por Lindsay Anderson.

Vencedor de prêmios, “If...” é uma obra que retrata a era da rebeldia em que a juventude vivenciava no fim da década de 60, onde acreditavam na revolução cultural e rompendo com as estruturas sociais mantidas pelos regimes de opressão moralista e burguesa. No filme, o roteiro parte do espírito subversivo dentro dos muros de uma conceituada escola privada britânica que sempre se manteve alicerçada na manutenção do tradicionalismo, na moral, na educação amparada pela doutrina cristã, e pela predominância do poderio da classe burguesa. A hierarquia é mostrada neste filme, e é presente entre os próprios alunos onde aqueles que são escolhidos como monitores – geralmente os mais velhos – são encarregados de manter a ordem na escola, reprimindo os seus colegas; possuem os alunos mais novos como subordinados e estes, por outro lado, são dispostos a servir a seus superiores, sendo punidos caso cometam qualquer ato de desobediência.

O primeiro plano de “If...” é uma passagem bíblica de Provérbios, 7:4, que possui o seguinte escrito: “A sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria; sim, com tudo que possuis, adquire o conhecimento”. Logo a seguir, há um corte onde já mostra a escola vista de fora, em plano largo, acompanhada de um canto gregoriano e intercalado por risadas eufóricas de crianças, finalizando com um longo silêncio. Lindsay Anderson pontua sempre no filme a predominância da doutrina cristã e a disciplina austera e silenciosa como metodologia para alcançar a sabedoria. Outro destaque do diretor são as repletas pinturas de filósofos nos corredores da escola e em salas de aula, e as ações repressivas e moralistas dos superiores para com os alunos, revelando uma contradição entre o desejo pelo conhecimento no campo das idéias e a manutenção do conservadorismo em prol dos bons costumes, na prática. Anderson procurou, ainda mais, dividir o filme em capítulos onde cada título é uma palavra-chave às características da escola e suas respectivas doutrinas.

O roteiro assemelha-se a filmes anteriores, como Os incompreendidos (França, 1959), que também traz uma escola que mantém um currículo tradicional, predominando a disciplina e a punição dos alunos rebeldes como forma de ensinar-lhes o caminho da moral e do saber. O sistema repressivo dentro do espaço escolar é evidente dentro dos filmes de Truffaut e Anderson, e esta repressão era justificada como uma educação para o homem de bem. Os dois diretores, também, se preocupavam em revelar esta educação ameaçada por seus protagonistas que iam de encontro a esta estrutura vigente. Em “If...”, o movimento rebelde dentro da instituição é liderado por Travis (personagem que revela o ator Malcolm McDowell, que mais tarde estrela em Laranja Mecânica), que considera a estrutura repressora da Academia como a verdadeira inimiga. O protagonista, junto aos seus companheiros, cria um espaço alternativo dentro da escola de elite: enquanto a escola é cercada por pinturas de homens inalcançáveis, o quarto de Travis é rodeado por imagens de homens que foram protagonistas de um cenário revolucionário. Para o protagonista “a violência e a revolução são os únicos atos puros.” Enquanto a escola possui um currículo em que predomina o preenchimento do aluno pela reprodução de conteúdos do professor, os rebeldes se educam com discursos revolucionários, sobre a quebra da moral e hipocrisia e discursos sobre a vida e a morte.

Durante toda sua narrativa “If...” denuncia um sistema escolar repressor e implacável, visando uma reprodução de um sistema dominante fora dos muros da escola. A didática de ensino, a metodologia moralista e a castração do livre pensamento partiam do pensamento dominante da época em que a história era narrada; dentro dos muros da escola, o aluno era adestrado a ser um receptor, a cumprir tarefas em horas contadas; não se considerava a diversidade do sujeito, seus desejos, sua sexualidade; esta, inclusive era um fator presente nos monitores que cobiçavam os seus subordinados, na maioria das vezes calouros que estavam adentrando nos primeiros anos da adolescência. Em “If...” a escola, reproduzindo o modelo social predominante, sufoca o aluno, desconhece suas necessidades, suas carências, não ampara as suas angústias; ao contrário: pune, castiga, reprime. Esta ausência de amparo e de uma válvula de escape é o estopim para o despertar de uma revolta, por parte dos subversivos, levando o sujeito a voltar-se contra a instituição em que se encontra.

“If...”, então, foi um trabalho ousado de um Anderson, como diretor, entregue à efervescência cultural de 68, antecipando o momento revolucionário. O roteiro produzido por David Sherwin e John possui a coragem de abrir as portas do sistema educacional da época, e os instrumentos que impediam a verdadeira emancipação do homem por meio do conhecimento. O filme denuncia a instituição que mantém a educação e manutenção da classe burguesa e enaltece uma minoria que sai desta classe e se torna sua inimiga. “If...” é, sem dúvida, um manifesto de denúncia contra um sistema que reprime a educação e emancipação do ser humano.

Ficha:

• Título Original: If…
• Direção: Lindsay Anderson
• Roteiro: David Sherwin, John Howlett
• Gênero: Drama
• Origem: Inglaterra
• Duração: 111 minutos
• Cor: Colorido

Trailer:



quinta-feira, 5 de maio de 2011

A maternidade no cinema.



Hoje, segundo domingo do mês de maio, é consagrado como o "dia das mães”. O cinema, por muitas vezes, constrói ao espectador uma preocupação entre a relação do personagem com o seio materno, e como isso determina o perfil psicológico do mesmo - algumas vezes justificando muitos de seus atos. Entre outras, o personagem é a própria mãe como protagonista, que constrói uma trama em torno de si e de seu amor (ou ódio) por seus filhos, trazendo à tona a capacidade de romper limites para proteger a sua cria.

Em clima da data, resolvi escolher (entre tantos) alguns filmes que tem como roteiro a forte presença materna, e como esta é importante durante todo o filme. Claro que há uma safra imensa de filmes desta temática, porém escolhi alguns que vi recentemente e outros que veio à mente:

1 - Tudo sobre a minha mãe (1999)

Almodóvar explora neste filme o sofrimento materno onde a personagem, uma mãe solteira, perde seu filho que é atropelado e morto no dia de seu próprio aniversário. Diante do acontecimento, ela vai à busca do pai do jovem, que atualmente é um travesti e não fazia idéia acerca da existência do filho. Um filme envolvido a encontros inesperados e relações com pessoas, cujas vidas encontram-se mergulhadas em experiências inusitadas.


2 - Adeus, Lênin! (2003)

Dirigido por Wolfganger Becker, o filme é uma comédia que se passa na Alemanha durante a destruição do muro de Berlim e, consequentemente, a queda do socialismo na Alemanha oriental. Antes deste acontecimento, a mãe de Alexander (vivido pelo ator Daniel Brühl), militante, passa mal ao ver seu filho ser preso por militares. Ao despertar, Berlim já se encontra invadida pela cultura capitalista. Temendo que sua mãe tenha uma reação grave à mudança, comprometendo a sua saúde, Alexander cria um espaço conservado à cultura socialista, a fim de esconder os acontecimentos.

3 - Eu matei a minha mãe (2009)

Drama do jovem diretor e ator Xavier Dolan, o filme aborda a relação de amor e ódio entre Hubert (vivido pelo próprio Dolan) e sua mãe, que vivem sozinhos no mesmo espaço e não conseguem compreender as suas diferenças. Hupert odeia o visual brega da mãe, enquanto ela (interpretada por Anne Dorval) detesta a forma como ele lida com sua adolescência.

4 - Juno (2007)

Ellen Page retorna às telas interpretando a adolescente Juno, uma garota que, em sua primeira relação sexual com seu melhor amigo (Michael Cera, Scott Pilgrin), engravida. Não vendo condição alguma para cuidar da criança, ela busca um casal que esteja disposto a adotar o bebê. Encontra enfim uma mulher, personagem de Jennifer Garner (Alias), que não consegue engravidar e sonha em ser mãe. Uma boa comédia, com uma trilha sonora perfeita e bela fotografia, onde explora o drama da gravidez na adolescência, por um lado, e o sonho de se tornar mãe, por outro. Direção de Jason Reitman (Obrigado por fumar).

5 - Mother: a busca pela verdade.

Por fim, um dos mais belos filmes sobre o tema, produzido no ano de 2009. A trama, muito bem construída, é tecida em torno da personagem (onde seu nome não é mencionado no filme - e não possui importância, pois o próprio título já responde) que possui um filho ingênuo, apesar de seus 27 anos, incriminado por um crime que não cometeu. Sem apoio da polícia e da vizinhança, a mãe segue por conta própria em busca de encontrar a verdade e inocentar o seu filho. O diretor (Bong Joon-ho) faz questão de por a investigação como uma chave para entender a relação entre a mãe, interpretada por Kim Hye-ja, e seu filho, revelando ao espectador momentos finais ofegantes.